Publicações - 01/04/2026
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No dia 23 de março aconteceu o seminário “A geopolítica do agronegócio”, promovido pelo MKR Advogados em conjunto com a Bites. O encontro reuniu autoridades públicas, especialistas, representantes do setor privado e pesquisadores para discutir como as transformações da ordem internacional vêm impactando o agronegócio brasileiro em temas como segurança alimentar, soberania, comércio internacional, fertilizantes, energia, investimento estrangeiro e regulação.
A abertura do evento ficou por conta do professor Modesto Carvalhosa, sócio-fundador do MKR Advogados, que situou o agronegócio no centro da economia brasileira e chamou atenção para o peso crescente do setor nas disputas globais por território, recursos naturais, segurança alimentar e influência política. Ao apresentar o encontro, destacou que a relevância do agro já não pode ser lida apenas em chave produtiva ou comercial, mas como parte de uma discussão mais ampla sobre soberania, estratégia nacional e inserção internacional do Brasil.
Na sequência, a senadora Tereza Cristina, ex-ministra da Agricultura, proferiu a palestra de abertura. Em sua exposição, defendeu que o agronegócio deixou de ser uma pauta setorial para ocupar posição estrutural na política externa e na reorganização da ordem global. Ao longo da fala, abordou a crise do multilateralismo, a crescente politização do comércio agrícola, a disputa entre grandes potências, os riscos ligados à segurança alimentar e a dependência de insumos estratégicos, com destaque para os fertilizantes.
A senadora também tratou da vulnerabilidade brasileira nesse mercado, do uso político de barreiras regulatórias e ambientais por outras economias e da necessidade de o país atuar com mais protagonismo na formulação das regras que afetam sua competitividade. Para Tereza Cristina, o Brasil reúne condições singulares para exercer liderança nesse cenário, mas isso depende de visão estratégica, coordenação institucional e capacidade de transformar inovação, sustentabilidade e produtividade em instrumentos efetivos de política externa.
O primeiro painel do seminário, mediado por Felipe Ronco, sócio do MKR Advogados, reuniu o professor Marcelo Coutinho, da FGV, o economista Plinio Nastari, presidente da DATAGRO, o deputado federal Danilo Forte e a cientista política Denilde Holzhacker, da ESPM. O bloco aprofundou o diagnóstico geopolítico do setor sob diferentes perspectivas.
Marcelo Coutinho apresentou um estudo voltado à percepção das elites do agro sobre temas geopolíticos. A partir da análise de discursos, manifestações públicas e redes sociais de agentes ligados ao setor, destacou a força de três eixos recorrentes: inovação, sustentabilidade e meio ambiente. Segundo ele, esses temas tendem a concentrar, de forma crescente, a disputa de narrativa em torno do agronegócio brasileiro, inclusive no plano internacional.
Na sequência, Plinio Nastari abordou o papel estratégico do Brasil na produção de alimentos e bioenergia, mas alertou para gargalos históricos, em especial a forte dependência externa de fertilizantes. Também chamou atenção para o uso político de agendas regulatórias e ambientais por outros países e para a necessidade de o Brasil participar mais ativamente da construção de normas internacionais que impactam o setor.
Danilo Forte tratou do papel do Legislativo na modernização do ambiente de negócios ligado ao agro. Defendeu maior aproximação entre formulação política, setor produtivo e debate técnico, e sustentou que temas como fertilizantes, transição energética, infraestrutura e segurança jurídica precisam ganhar prioridade no Congresso. Fechando o painel, Denilde Holzhacker analisou a nova configuração da ordem internacional e os reflexos desse ambiente sobre decisões estatais e empresariais, destacando a tendência global de maior restrição à aquisição de terras por estrangeiros e a crescente associação entre agro, território e segurança nacional.
O segundo painel foi mediado por Fernando Kuyven, sócio do MKR Advogados, e reuniu o deputado federal Baleia Rossi, a sócia-líder de agronegócio da KPMG no Brasil, Giovana Araújo, e o chefe-geral da Embrapa Territorial, Gustavo Spadotti. O foco esteve nos efeitos concretos dos riscos geopolíticos sobre ativos agrícolas, investimentos, cadeias produtivas e formulação legislativa.
Baleia Rossi destacou a importância de preservar segurança jurídica e competitividade para o setor, afirmando que o Congresso tem respondido, quando provocado, a pautas relevantes para o agronegócio. Giovana Araújo apresentou a perspectiva de grandes grupos empresariais e investidores diante da crescente centralidade estratégica do agro, observando que o Brasil ocupa posição privilegiada, mas precisará avançar em coordenação, inteligência, infraestrutura e qualidade de decisão. Gustavo Spadotti concentrou sua fala nos riscos mais imediatos para o setor, com destaque para o mercado internacional de fertilizantes, os gargalos logísticos e os impactos de tensões recentes sobre os custos de produção.
O terceiro e último painel, mediado por Kauê Oliveira, tratou dos caminhos que o Brasil pode projetar para o futuro diante desse novo contexto. Participaram do debate o ex-ministro Aldo Rebelo, o procurador da República Michel François Havrenne, o advogado Leandro Chiarottino e o advogado Rodrigo Caldas de Sá. O eixo comum das exposições foi a relação entre território, soberania, segurança institucional e desenvolvimento econômico.
Ao longo das falas, ganharam destaque temas como a aquisição de terras por estrangeiros, os desafios do marco regulatório atual, a necessidade de previsibilidade jurídica para investimentos de longo prazo e o papel do Estado na proteção de ativos estratégicos. Ao reunir representantes do setor público, da academia, do mercado e da advocacia, o seminário reforçou a percepção de que o agronegócio brasileiro ocupa hoje posição central no debate sobre soberania, desenvolvimento e inserção internacional do país.